<font color=0094E0>Era uma vez…</font>
Era uma vez, nos idos de 1961, cinco actores cujas idades andavam à volta dos 30 anos. A maior parte começara a sua carreira artística nos grupos experimentais do pós guerra: o Teatro Estúdio do Salitre, o Pátio das Comédias. Todos eles haviam integrado, nos anos anteriores e em diversas temporadas, o Teatro Nacional Popular dirigido por Francisco Ribeiro. E, para todos eles, o teatro era uma manifestação de arte que «exige um conteúdo de significado actual e uma forma que possa servir esse conteúdo», portanto dotada do «poder de sugestão necessário para o desempenho eficaz da sua função social». O que, ao tempo, só por excepção, acontecia nos palcos nacionais. Foi por reacção contra esse estado de coisas, e em obediência àquelas linhas mestras, que Carmen Dolores, Armando Cortez, Fernando Gusmão, Rogério Paulo e Armando Caldas se constituíram em sociedade artística e fundaram o Teatro Moderno de Lisboa.
1961 foi um ano chave na política de Portugal. Muita coisa aconteceu que iria transformar – ou contribuir para que se transformasse – a face do País. Janeiro ainda estava a correr e o navio Santa Maria era assaltado por um comando sob as ordens do capitão Henrique Galvão, numa operação que chamou as atenções do mundo para a natureza totalitária e imperialista de um regime que durava há mais de 30 anos. Um mês depois, as colónias africanas, crismadas eufemisticamente de «províncias ultramarinas», iniciavam, entre o sangue e a esperança, a luta pela sua libertação. Em Abril, frustrava se um golpe de estado palaciano encabeçado pelo Ministro da Defesa, general Botelho Moniz – e Salazar via reforçado o seu poder que uma nova farsa eleitoral consolidaria em meados de Novembro.
O ano não terminaria sem que ocorressem dois acontecimentos de transcendente impacte: a União Indiana ocupa e invade os territórios coloniais da Índia e, na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro de 1962, o quartel de Beja é assaltado, numa tentativa de insurreição militar que fracassa, como tantas outras, antes e depois, até Abril de 1974. O mito do império começa a desmoronar-se.
Sinal de inconformismo
A censura aos espectáculos, como era de prever, recrudesceu. Disto se ressentiu duramente, o Teatro Moderno de Lisboa. Se, nos últimos anos da década anterior, foi possível levar à cena Arthur Miller, Tennessee Williams, Durrenmatt, Beckett, as primeiras peças de Santareno e de outros jovens autores portugueses, a brutal suspensão das representações de A Alma Boa de Se Tsuan, de Bertolt Brecht, pela companhia brasileira de Maria Della Costa, marcou o início de uma nova era de «fiscalização e repressão» da actividade teatral, anunciada, desde 1927, por um decreto de triste memória.
Até que ponto e em que medida a actividade do Teatro Moderno de Lisboa foi «fiscalizada e reprimida» – e, portanto, afectada –, por vezes com episódios caricatos (como a substituição de um bailarino russo por outro americano, na peça de Mihura, Os Três Chapéus Altos, ou da luz vermelha de um farol por uma lilás...), dizem-nos as peças que se propôs levar à cena e a censura não lho permitiu. Mas o que, apesar de tudo, se pode fazer, bastou para creditá-lo como uma das mais significativas propostas de saneamento e dignificação da cena portuguesa nesses tristes e cinzentos longos anos. Entre a submissão de alguns, a complacência ou o silêncio de outros, o Teatro Moderno de Lisboa foi o lugar – e o sinal – do inconformismo.
Ai está, para prová-lo a exigência de um repertório em que estavam presentes autores clássicos (Shakespeare, Strindberg) e modernos (Adamov, Mihura), estrangeiros e nacionais, a modernidade das encenações, a leitura ideológica subliminar que delas se desprendia e que um público, maioritariamente jovem, apreendia com avidez.
Espectáculos marcantes
Sem esquecer outros notáveis espectáculos – como aquele que Paulo Renato encenou e em que se reuniram O Pária, de Strindberg, O Professor Taranne, de Adamov, e o meu Dia Seguinte –, dois houve que merecem uma referência particular: o primeiro e o último da companhia, exactamente, O Tinteiro, de Carlos Muñiz, e o Render dos Heróis, de José Cardoso Pires. Pelo alto nível artístico em que se situaram como pela sua repercussão social e até política.
Um denominador comum aproximava as duas peças que, à superfície, se orientavam por linhas estéticas diferentes. Era, na verdade, grande o contraste entre o expressionismo, tingido de absurdo, da farsa trágica de Muñiz – um jovem dramaturgo espanhol que cedo a morte arrebatou – e a estrutura épica da narrativa dramática de Cardoso Pires, primeiro acercarmento à lição de Brecht nos palcos portugueses (só depois surgiram O Judeu, Felizmente Há Luar e António Vieira), aliás de acesso interdito a eles, como viria a acontecer a o Render dos Heróis no termo da sua gloriosa carreira do TML. Mas encontravam se ambas num entendimento, que diremos ideológico, do realismo desvinculado das coordenadas da escola; pois tanto o mundo desumanizado e alienatório de O Tinteiro, como o Portugal das lutas liberais e da revolta da Maria da Fonte, na narrativa de Cardoso Pires, são imagens de uma mesma realidade que nos é dada a ver através de óculos diferentes. As encenações de Rogério Paulo, para a primeira, e de Fernando Gusmão, para a segunda, as interpretações notáveis de Armando Cortez naquela e de Ruy de Carvalho nesta, bem coadjuvados por todos os outros elementos da companhia, souberam tornar isto evidente – e a reacção entusiástica do público a estes dois espectáculos mostrou que, em ambos os casos, o alvo que visavam fora atingido.
Mas não é só por força desses (e dos demais) espectáculos que o TML ocupa um lugar ímpar no quadro da nossa praxis teatral dos derradeiros anos do fascismo. Ele foi o precursor de todos os grupos independentes que, a partir dos finais da década de 60, encetaram um novo capítulo da história do espectáculo cénico em Portugal. Por isso, lembrá-lo, é um acto de pura e imprescindível justiça.
1961 foi um ano chave na política de Portugal. Muita coisa aconteceu que iria transformar – ou contribuir para que se transformasse – a face do País. Janeiro ainda estava a correr e o navio Santa Maria era assaltado por um comando sob as ordens do capitão Henrique Galvão, numa operação que chamou as atenções do mundo para a natureza totalitária e imperialista de um regime que durava há mais de 30 anos. Um mês depois, as colónias africanas, crismadas eufemisticamente de «províncias ultramarinas», iniciavam, entre o sangue e a esperança, a luta pela sua libertação. Em Abril, frustrava se um golpe de estado palaciano encabeçado pelo Ministro da Defesa, general Botelho Moniz – e Salazar via reforçado o seu poder que uma nova farsa eleitoral consolidaria em meados de Novembro.
O ano não terminaria sem que ocorressem dois acontecimentos de transcendente impacte: a União Indiana ocupa e invade os territórios coloniais da Índia e, na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro de 1962, o quartel de Beja é assaltado, numa tentativa de insurreição militar que fracassa, como tantas outras, antes e depois, até Abril de 1974. O mito do império começa a desmoronar-se.
Sinal de inconformismo
A censura aos espectáculos, como era de prever, recrudesceu. Disto se ressentiu duramente, o Teatro Moderno de Lisboa. Se, nos últimos anos da década anterior, foi possível levar à cena Arthur Miller, Tennessee Williams, Durrenmatt, Beckett, as primeiras peças de Santareno e de outros jovens autores portugueses, a brutal suspensão das representações de A Alma Boa de Se Tsuan, de Bertolt Brecht, pela companhia brasileira de Maria Della Costa, marcou o início de uma nova era de «fiscalização e repressão» da actividade teatral, anunciada, desde 1927, por um decreto de triste memória.
Até que ponto e em que medida a actividade do Teatro Moderno de Lisboa foi «fiscalizada e reprimida» – e, portanto, afectada –, por vezes com episódios caricatos (como a substituição de um bailarino russo por outro americano, na peça de Mihura, Os Três Chapéus Altos, ou da luz vermelha de um farol por uma lilás...), dizem-nos as peças que se propôs levar à cena e a censura não lho permitiu. Mas o que, apesar de tudo, se pode fazer, bastou para creditá-lo como uma das mais significativas propostas de saneamento e dignificação da cena portuguesa nesses tristes e cinzentos longos anos. Entre a submissão de alguns, a complacência ou o silêncio de outros, o Teatro Moderno de Lisboa foi o lugar – e o sinal – do inconformismo.
Ai está, para prová-lo a exigência de um repertório em que estavam presentes autores clássicos (Shakespeare, Strindberg) e modernos (Adamov, Mihura), estrangeiros e nacionais, a modernidade das encenações, a leitura ideológica subliminar que delas se desprendia e que um público, maioritariamente jovem, apreendia com avidez.
Espectáculos marcantes
Sem esquecer outros notáveis espectáculos – como aquele que Paulo Renato encenou e em que se reuniram O Pária, de Strindberg, O Professor Taranne, de Adamov, e o meu Dia Seguinte –, dois houve que merecem uma referência particular: o primeiro e o último da companhia, exactamente, O Tinteiro, de Carlos Muñiz, e o Render dos Heróis, de José Cardoso Pires. Pelo alto nível artístico em que se situaram como pela sua repercussão social e até política.
Um denominador comum aproximava as duas peças que, à superfície, se orientavam por linhas estéticas diferentes. Era, na verdade, grande o contraste entre o expressionismo, tingido de absurdo, da farsa trágica de Muñiz – um jovem dramaturgo espanhol que cedo a morte arrebatou – e a estrutura épica da narrativa dramática de Cardoso Pires, primeiro acercarmento à lição de Brecht nos palcos portugueses (só depois surgiram O Judeu, Felizmente Há Luar e António Vieira), aliás de acesso interdito a eles, como viria a acontecer a o Render dos Heróis no termo da sua gloriosa carreira do TML. Mas encontravam se ambas num entendimento, que diremos ideológico, do realismo desvinculado das coordenadas da escola; pois tanto o mundo desumanizado e alienatório de O Tinteiro, como o Portugal das lutas liberais e da revolta da Maria da Fonte, na narrativa de Cardoso Pires, são imagens de uma mesma realidade que nos é dada a ver através de óculos diferentes. As encenações de Rogério Paulo, para a primeira, e de Fernando Gusmão, para a segunda, as interpretações notáveis de Armando Cortez naquela e de Ruy de Carvalho nesta, bem coadjuvados por todos os outros elementos da companhia, souberam tornar isto evidente – e a reacção entusiástica do público a estes dois espectáculos mostrou que, em ambos os casos, o alvo que visavam fora atingido.
Mas não é só por força desses (e dos demais) espectáculos que o TML ocupa um lugar ímpar no quadro da nossa praxis teatral dos derradeiros anos do fascismo. Ele foi o precursor de todos os grupos independentes que, a partir dos finais da década de 60, encetaram um novo capítulo da história do espectáculo cénico em Portugal. Por isso, lembrá-lo, é um acto de pura e imprescindível justiça.